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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008

Baú de Memórias: As mulheres da Serra

 

Só algumas poucas, conseguiram passar na teia de um meio liderado por homens apesar da luta empreendida na subsistência da família e da força para enfrentar a dureza da vida a que eram sujeitas.Refiro-me as mulheres da serra nascidas nas nossas aldeias, escondidas na nossa serra. Com meiguice bem cedo essas meninas aceitavam os sacrifícios impostos pelo isolamento das aldeias onde nasceram como uma condição de ser mulher preparando-se para o seu papel de esposa e mãe, raramente sem saber da importância que tinha na condução dos destinos do lar. Enquanto o homem trabalhava só na agricultura a mulher da serra ajudava-o nesses trabalhos mas tinha ainda o trabalho doméstico e a educação dos filhos e muitas vezes ainda cuidava dos pais ou sogros já idosos sem a preciosa ajuda das máquinas que hoje todos nós temos. Começava o dia de madrugada ainda o sol não brilhava e normalmente era a que mais tarde se deitava, tendo alguns dias de semana que bem mais cedo se levantavam para deitar a água para os campos quando esta já andava de andada (andada é a água que é estancada numa poça e depois dividida por vários donos das terras) sendo que por vezes para espantar o sono cantavam.

 

Que difícil era cozinhar para a família quando havia tão pouco em casa servido-se apenas do que a terra dava consoante a época do ano (caldo de castanhas, carolo, sopa de feijão, batatas cozidas, meia sardinha por pessoa ou carne de porco se a família o criasse) porque as famílias normalmente eram numerosas e pobres o mais usual era o caldo de couves ás vezes sem um fio de azeite porque nem sempre o havia... debruçadas sobre a lareira iam gerindo os fracos recursos de que disponham.Era a elas que os filhos pediam pão, eram elas que os consolavam ou lhe davam umas palmadas nas más traquinices do dia a dia guardando para o homem a resolução do castigo em casos mais graves.Tratavam da cozedura da broa desde o aquecer o forno á amassadura da farinha e ao pôr no forno. Depois da massa finta faziam os enchidos em dia de matança de porco, tratavam das galinhas migando as folhas de couves e amassadas com farinha, lavavam a roupa da família no tanque comunitário ou nas barrocas ou ribeiras engomavam a roupa com velhos ferros de carvão soprando de vez em quando para o ferro se não apagar, guardavam o gado ( cabras e ovelhas ), faziam o queijo, lavavam a casa com escova de piaçaba e sabão azul e branco. Para varrer usavam vassouras feitas com ramos de giestas, enfeitavam as cantareiras com folhas de jornais recortados a imitarem as rendas. Os miúdos brincavam com carros feitos de corcodia dos pinheiros ou com um pião feito manualmente e as meninas brincavam com as bonecas feitas de trapo velhos.

Em dias de feira andavam quilómetros a pé e descalças só se calçavam ao chegar perto da povoação onde se realizava a feira para não estragar o pouco calçado que tinham. Levavam ovos que normalmente eram trocados por sardinha porque o dinheiro era muito pouco regressavam ao fim do dia com a cesta á cabeça e os filhos ao colo ou pela mão quando já eram mais crescidos. Esse dia era uma alegria porque conviviam com os vizinhos de outras aldeias vizinhas que normalmente só se viam em dia de feira. De quando em vez lá iam a uma romaria ( Nossa Senhora das Preces, Senhora do Monte Alto ou Senhora do Desterro ou Santa Eufémia de Paranhos ), lá iam todas contentes atravessando a nossa serra quebrando a rotina dos dias de trabalho trazendo sempre uma lembrança para os parentes mais próximos ( ma medalha, tremoços, um bolo doce).

Era frequente estas mães passarem um desgosto ao verem morrer um filho por falta de assistência porque a que tínham era pouca e longe dos nossos povoados.Os filhos normalmente eram criados sem a ajuda dos pais, muitos deles depois de casados partiam para Lisboa empregava-se na muralha (estiva), na empresa geral de transportes (entregas porta a porta), no arrasto do peixe (doca) enfim nas mais variadas profissões só vindo á terra uma vez por ano normalmente em dia de festa da aldeia. Traziam algum dinheirito, normalmente deixava a mulher grávida e lá partia para mais um ano de trabalho e a mulher cá continuava na aldeia... recebia carta de quando em vez iam assim trocando ideias e ele lá ia sabendo como os filhos cresciam assim á distancia até que fizessem a terceira ou quarta classe para eles também partirem á aventura para outras paragens.

Aqui fica o meu elogio a todas essas mulheres, que conseguiram na maioria dos casos ultrapassar as dificuldades criando os filhos e sacrificando-se para que o futuro deles fosse melhor que o delas. Hoje muitos deles ainda me visitam, alguns acredito que sejam o orgulho dessas mães, outros nem tanto... espero apenas que pelo menos saibam dar valor e que recordem com respeito essas mulheres que os deram à luz e que por muitos defeitos que possam ter tido, nunca deixaram de os amar e de se preocupar com a sua felicidade...

 

 

publicado por vozdogoulinho às 14:17
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De ANTONIO ASSUNÇÃO a 5 de Setembro de 2008 às 15:22
Ao ler este artigo as lágrimas saíram dos meus olhos não de tristeza mas de alegria pela avó e mãe que tive e que com a sua simplicidade e pobreza me souberam educar e eu tentei passar para os meus filhos o tanto carinho e amor que recebi .
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