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Sexta-feira, 8 de Abril de 2011

GOULINHO E OS RESINEIROS

 

Hoje de manhã, fui dar uma volta pelas ruas da Bobadela, terra que me acolheu já há vinte cinco anos, encontro um amigo, bom dia, então como vai a família, enfim cumprimentos da praxe, conversa, puxa conversa, e lá vamos cair naquilo que toda a gente fala, o País, a crise qual vai ser o futuro, respondo, pois é ninguém sabe responder, mas para melhor não iremos, este mal vai demorar muitos anos a curar.

 

Responde o meu amigo: “Hoje toda a gente se queixa, no nosso tempo a vida era muito pior, e nós fomos vivendo com muitos sacrifícios, e não protestávamos, hoje, toda a gente protesta por tudo e por nada, olhe, eu bem novo, com catorze anos, já andava com uma lata ás costas a resinar pinhal com o meu Pai, mal eu podia com a lata vazia, era vida dura, mas não morri, hoje rapazinhos com dezoito, e vinte anos, nada sabem fazer, e muitos até nem querem, os pais é que os governam, esperamos que melhores dias venham …olhe, até mais logo, o senhor tem para onde ir, e eu também.” e a conversa ficou por aqui.

 

Vim para casa, e a conversa vinha na minha cabeça, ou seja, a história de vida de resineiros que eu no meu Goulinho, tive a oportunidade de ver, a difícil vida , desses valentes homens.

 

Levantavam-se ainda o sol não tinha nascido, metiam os pés ao caminho, de lata ao ombro, raspa na mão, levando ou não estacas, bicas ou púcaros de barro, ( mais tarde vieram de plástico ) mas sempre prontos a dar cabo da fatiota pelo ácido que botavam nas sangrias, só a lata vazia, e o peso da mesma, já era um desconforto .

 

Levavam preso à cintura um saco de pano com uma bucha para comerem no meio da mata o sitio escolhido era sempre junto de um nascente de água ou junto de um ribeiro para beberem a água fresca.

 

Comendo o que o diabo amassou, é de dar graças a Deus, serem livres de grandes quedas, pois passavam por grandes penhascos, e fragas , eram uns verdadeiros fura moiteiras, percorrendo caminhos de cabras, passando no meio das silvas e do mato da altura de um homem. Admiro o saber daqueles homens, que corriam de pinheiro, em pinheiro, sem falhar um pinheiro.

 

Vi muitas vezes pela hora do calor, o nosso amigo Serafim, com um pau aos ombros, e duas latas cheias de resina, de cada lado, homem forte, poucos faziam esta aventura.

 

A resina era vazada em barris, estrategicamente colocados, à beira dos caminhos florestais, para serem recolhidos por carros de bois, lembro-me do senhor Cipriano, fazer esse transporte, para o sitio chamado o Vale, frente ao Goulinho junto da fonte velha, dai era carregado em camionetas para as várias fabricas de transformação de resina.

 

Havia pinhais, que rebentavam com qualquer resineiro, por exemplo os pinhais da Barroqueira, do Maroucho, da Cavadinha, nestes era sempre a subir, com a lata ao ombro, até chegar á estrada.

 

Hoje os pinhais existem, não são resinados, não sei se por falta de pessoal, que queira fazer este tipo de trabalho, ou será, que a resina não tem o valor dos tempos passados?

 

Este texto serve de homenagem àquele que foi um grande resineiro no Goulinho o saudoso Serafim.

 

 

A vida de resineiro

É uma vida amargurada

De pinheiro em pinheiro

Não encontra a sua amada

 

 

publicado por vozdogoulinho às 19:38
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6 comentários:
De luis antunes a 8 de Abril de 2011 às 22:32
Ola muito boa noite
esta mensagem fez me lembrar tambem quando em Bogas de Baixo a maior parte das familias iam buscar aos pinhais especialmente á resinagem, a maior parte do seu sustento
Isto quer dizer que tanto servia para os proprietários como para os resineiros
Nunca se sabe se não voltaremos a esse tempo de vida muito dura mesmo para sobreviver com alguma dignuidade
Um abraço ao meu amigo António
De Lourdes a 9 de Abril de 2011 às 01:39
Olá
Este "post" faz-me pensar como são diferentes as gerações através dos tempos. Há dias manifestavam-se uns jovens apelidando-se de geração "à rasca", Há tempos alguém chamou aos jovens da época geração "rasca". Eu tenho orgulho de pertencer à geração dos desenrascados...
Beijinhos
Lourdes
De Andesman a 10 de Abril de 2011 às 15:28
Não trabalhei como resineiro, mas trabalhei nos pinhais como madeireiro. Cortei pinheiros e descasquei a machado, rolos e faxinas e ajudei a carregar camiões de madeira. Não era melhor, era mesmo duro.
Hoje todo o mundo se queixa, naquele tempo "comíamos" e calávamos.

1 abraço e saude para si
De barrojal do balsas a 10 de Abril de 2011 às 23:03
Homenagem justa para um homem que viveu para esta profissão e com um ritmo difícil de acompanhar eu pessoalmente tive o privilégio de o conhecer e também eu sou neto de dois resineiros nada que se possa comparar com aquilo que hoje se chama dificuldades e falta de condições de trabalho outros tempos e outras vidas, parabéns amigo António por esta homenagem a todos e ao "Ti Serafim".
Grande abraço.
BALSAS
De jafpm a 14 de Abril de 2011 às 16:55
amigo António cá estou eu mais uma vez a dar uma olhadela na tua escrita e como sempre gosto do que leio.
um abraço
José Augusto Matos
De Silvia Jorge a 18 de Agosto de 2011 às 13:23
Vim parar a este blog porque procuro resina natural, a resina extraida pelos resineiros. Represento uma associação que tem um projecto que envolve materiais ecológicos e desenvolvimento das actividades locais.
Se me pudessem ajudar a encontrar resina natural e resineiros, agradecia.
sjorge@avizinha.com

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